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domingo, 10 de janeiro de 2016

O Garoto à Procura de Paz

Ele andava lentamente pela rua: uma camisa qualquer mais uma bermuda qualquer e um par de havaianas. Com a cabeça baixa e os olhos lacrimejando. Estava cercado de pessoas, mas imerso no seu próprio mundo interior. Pensando em seus pensamentos; confuso com as suas próprias confusões; indeciso analisando as próprias indecisões. Incomodado com seu silêncio, mas barulhento demais para dizer qualquer coisa com clareza.
Ao virar a esquina da rua de sua casa, esbarrou em algo. Poderia ser um cachorro, um ladrão, um poste, um caminhão, um assassino. Só que não. Queria que fosse. Era apenas mais uma pessoa, com um rosto meigo e gentil.
-Não! –Sussurrou.
A pessoa franziu as sobrancelhas e olhou para o rosto dele com atenção. O garoto temia com todas as suas forças o que estava por vir. Olhou para os lados. Queria correr. Para onde? Não parecia saber.
-Você está bem, garoto? Você parece meio... –Aconteceu.
Oliver sentiu ondas salgadas e fortes vindas do seu oceano Tristânico, caindo pelo seu rosto e inundando sua face. Os lábios tremiam. As batidas do seu coração podiam ser escutadas a quilômetros de distância. Sua cabeça se tornou um tipo especial de bomba atômica: incapaz de ferir outras pessoas, mas capaz de explodir um mundo inteiro. O mundo dele.
Suas pernas fraquejaram e a pessoa segurou seu braço direito. Oliver a olhou nos olhos. Surpreso.
-O que você está fazendo? –Ele conseguiu dizer.
-O que você quer dizer? Venha. Senta aqui comigo. Vamos conversar. Quer um copo d’água?
-Isso não é real. Você não existe. –Ele bebia as suas próprias lágrimas a cada palavra.
-Garoto, se você se acalmar e conversar comigo, prometo que posso tentar te ajudar. Encontrar uma solução para o seu problema ou algo do tipo, só...
-Não, você não pode me ajudar. Você não pode me entender. Ninguém entende. Eu não entendo. –Ele chorava mais. Suas mãos pareciam estar sendo eletrocutadas. –Há várias soluções, mas nenhuma coragem para tomá-las. Me deixa em paz. ME DEIXA EM PAZ. –E ele correu.
A pessoa ficou surpresa. Levou a mão a boca se perguntando se deveria ir atrás dele ou, de fato, deixá-lo ir e ficar em paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Aquela palavra ecoou no espaço e parece ter ficado entre eles até ele sumir de vista. E foi isso. Sumiu. Na verdade, tudo começou sumindo aos poucos. Seu sorriso, suas boas lembranças, seus amigos, sua família, sua vontade de viver, sua esperança, sua fé. Sua identidade. E por último, ele mesmo sumiu, do mundo dos vivos, pelo menos.
Algumas horas depois, a pessoa falava com a imprensa:
-Ele era só mais uma alma perturbada.
Que não encontrou PAZ.


Fim

Lianderson Ferreira

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Líquido Vermelho

Estava sentada ali há horas, pensando. Queria ver o filme de toda a sua vida dentro da sua cabeça, toda a sua história, todas as memórias guardadas lá dentro. Não sabia por quê. Três deles já haviam passado. O que estava esperando? Suspeitava ser o medo, porque nunca fora corajosa, sempre desistira das coisas difíceis e fugira das complicações. Ora não era isso o que estava prestes a fazer mais uma vez? Desistir? Pensou ser covardia também. Estava fugindo pela centésima vez, contudo, de uma maneira um tanto mais radical. Mas continuava sendo uma fuga. Escapismo. Sairia dali assim? Reconhecida por sua covardia? Perguntou a si mesma se não se tratava de uma pontinha de esperança lá no fundo do seu peito. Esperança de que tudo mudasse; de que as coisas se tornassem melhores com o tempo; de que todas aquelas frases de inspiração e encorajamento fizessem sentido finalmente. Mas, também podia ser apenas aquela espera eterna de que ele voltasse. O único ser que entrou na vida dela e a fez feliz de verdade.
Lembrou-se daqueles dias em que acordava e lá estava ele: deitado de bruços, o cabelo bagunçado e o ronco baixo que mais parecia música aos seus ouvidos. Lembrou-se das vezes em que ela era acordada com um beijo na testa, um sorriso amarelo bem na sua frente e um prato cheio de frutas para o café da manhã. Lembrou-se ainda do primeiro beijo. Ah, aquele beijo. Ela nem sabia como se sentir ao lembrar: se chorava por ser algo impossível agora ou se sorria por ter sido tão lindo.

Era a sexta declaração de amor dele para ela. Diamond nunca fora uma moça fácil de lidar. Ignorava todos os garotos que por ela se interessassem. Não porque não quisesse se sentir atraente, mas porque tinha medo do que poderia vir a ser, a acontecer. E de fato, aconteceu.
Walter lhe trouxe flores; Diamond pisou em cima delas. Walter comprou-lhe uma caixa de chocolate importado; Diamond jogou dentro do bueiro que ficava na frente de sua casa. Walter lhe trouxe seu sorvete favorito; Diamond cuspiu nele e ignorou toda aquela baunilha congelada. Walter sabia da paixão dela por fotografias e deu-lhe uma câmera digital para ela guardar as belas paisagens da natureza; Diamond  jogou-a dentro do rio; Walter fez um desenho lindo de Diamond sorrindo graciosamente, mas ela picou o papel em pedacinhos. Na sexta tentativa, ele não trouxe nada nas mãos. Sempre chegava com algo. Chegava sorridente e saía com as mãos abanando e o rosto com aquela expressão de dor. Dessa vez, veio chorando. Olhou dentro dos olhos de Diamond e disse: “Eu não estou desistindo. Não se desiste de algo tão lindo, de alguém tão encantadora. Mas meu coração não aguenta mais ser tratado como flores pisoteadas ou como papeis picados. Eu te amo, Diamond. Mas não quero me sentir assim, não consigo mais.”
Diamond o olhava sem entender o que aquelas palavras significavam. Observou-o virar as costas e se afastar. Seu coração apertou. Não poderia permitir. O que ele estava fazendo? Ele não a amava? Por que estava indo embora? “Ele não pode me deixar. Não pode!”, pensou. Correu atrás dele e o entrelaçou em seus braços. Ele correspondeu com aquele beijo, o primeiro beijo da vida dela, o beijo mais lindo de todos: suave, doce e apaixonado.
E ambos sorriram.

Após essa linda memória, Diamond saiu do seu transe, devido a um barulho alto na estação. O quarto havia acabado de passar. Ela o ignorou. Ainda não acabara. Era a vez da memória sofrida. Automaticamente, foi transportada para o dia do funeral dele.

Seu maior amor, que costumava ser sempre tão forte, encontrava-se de olhos fechados, envolto por flores e velas, totalmente impotente. Os parentes e amigos de Walter choravam. Mas ela não chorou no seu funeral. Na verdade, ela não sentiu nada. Seu rosto era uma pedra. Nenhuma expressão. Os seus olhos eram quase imóveis. Ela ficou lá, apenas olhando para ele. Sua mãe falava com ela, seu pai parecia fazer o mesmo, os amigos mexiam os lábios constantemente, mas ela não ouvia nada. Após Walter ter sido enterrado, alguém a levou em casa. Ela não dormiu naquela noite. Nem na seguinte. Nem na depois desta. Passava o dia tentando entender. Procurando respostas. Às vezes, cansada daquele esforço intelectual, procurava se distrair. Tentava ler seus autores favoritos. Não conseguia se concentrar. Tentava fotografar os beija-flores na roseira do seu quintal, mas tudo era preto e branco. Tentava escrever algum poema, mas só conseguia escrever a inicial do nome dele.

E agora estava ali.
Não suportaria mais aquilo. Aquela vida. Aquele vazio. Aquela tristeza. Tristeza era o que estava sentindo e, quando percebeu isso, ela chorou. Chorou todas as lágrimas guardadas desde o dia em que Walter descobriu seu câncer. Chorou como se o mundo todo não fizesse mais sentido. Chorou.
As pessoas na estação a encaravam, sem entender o que ela estava fazendo, sentada ali sozinha e distante de todo mundo. “É só mais uma louca.” Alguém gritou. Olhavam desconfiados. Aquela cena parecia penosa para algumas pessoas. Mas ninguém fez nada.
Já havia passado mais outro, o que totalizava cinco oportunidades perdidas no mesmo dia.
O que ela havia feito para merecer aquilo? Antes de Walter, ela não era nada: não era feliz, mas também não se considerava triste. Ele apareceu. Ela mudou. Seus dias pareciam sempre iluminados. Seu coração era pura alegria. Em menos de um ano, lá estava ela: perdida, sozinha e arrependida. Arrependida de ter humilhado Walter por tanto tempo; de não ter aproveitado aqueles dias para estar na companhia do seu amado por mais alguns meses; de não ter se permitido amar antes, bem antes. Apenas arrependida por ter escolhido tantas opções ruins, quando alternativas melhores estavam ali ao seu alcance.
Um barulho. Lá vinha sua sexta oportunidade. Não a desperdiçaria. Poderia escolher mais uma vez, não sabia se essa se encaixava nas opções ruins ou boas, mas a escolheria de qualquer forma. Levantou-se ainda em prantos. Os olhos embaçados pelo rio que brotava dos seus olhos. Viajaria. Partiria para uma nova vida. Mudaria tudo. Escaparia pela última vez. Desistiria pela última vez.
Deu alguns passos largos e rápidos na direção dos trilhos, o sexto trem chegou e ela se foi.
Na estação, as mesmas pessoas que a chamaram de louca e nada fizeram por ela gritavam horrorizadas ao ver a quantidade de líquido vermelho capaz de sair do corpo de uma única mulher.

Lianderson Ferreira

domingo, 17 de maio de 2015

Romance no Cemitério

          Era uma noite aparentemente normal. Seu Antônio saíra de casa e encaminhava-se a sua jornada noturna no cemitério municipal. Esperava que fossem apenas mais algumas horas chatas e cansativas de trabalho.
          Assim que chegou ao local, pôs-se a caminhar silenciosamente, contando as horas para aquela noite acabar rápido.
          De repente, ele ouviu um barulho. Algo, além dele, andava pelo cemitério. Ele estremeceu de medo.
          Seria um bandido? Drogados? Uma alma penada?
          Ele precisava descobrir. Andou lentamente. Não queria que percebessem sua presença. Após alguns passos, avistou a sombra de duas pessoas na parede do cemitério. Não conseguia ver as pessoas, só avistava as sombras.
          Ele permaneceu parado onde estava, observando. E ficou surpreso com o que viu: as sombras pareciam se abraçar. Um abraço verdadeiro.
-Um casal –ele sussurrou.
          Ficou mais curioso. Queria saber quem eram aquelas pessoas e o porquê de escolherem um cemitério para namorar.
          Deu mais alguns passos, mas percebeu que as sombras se beijavam em seguida. Não querendo ser inconveniente, recuou um pouco. As sombras pareciam felizes. O velho sentiu-se um pouco comovido com aquela cena.
          Não precisava de uma explicação, de um motivo, não precisava sequer compreender aquela situação, afinal, eles estavam felizes.
          De repente, as sombras pararam de se beijar. E, de mãos dadas, caminharam em direção à saída. Para Seu Antônio, não importava mais saber quem eram aquelas pessoas. Apesar disso, foi atrás deles, só por curiosidade. Ao virar à direita, ele parou chocado. Na verdade, as sombras não eram de pessoas, tratava-se de dois esqueletos que caminhavam calmamente, atravessando o portão do cemitério e sumindo logo em seguida.
          O velho ficou confuso. Sentou-se no chão e ficou olhando para o nada.
          Aqueles esqueletos, a quem pertenciam?
          Seriam de um homem e de uma mulher? Seriam de dois homens? Seriam de duas mulheres? De negros? Ou seriam de brancos? Seriam de pessoas magras ou seriam de gordas? Ele nunca saberia.
          A única convicção que tinha era de que, independente de tudo o que ele acreditava ou achava certo, eles eram felizes.

Lianderson Ferreira

domingo, 19 de abril de 2015

Oitenta e Seis Anos

O sol nascera; os pássaros puseram-se a cantar e a acordar as pessoas do bairro com aquele som gracioso. As senhoras cumprimentavam-se na rua e abriam as janelas de suas casas para receber a luz daquele dia grandioso. O senhor Charlie também havia acordado. Calçou seus chinelos, escovou os dentes e lavou o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova marca da idade tornava-se visível em seu rosto. Dirigiu-se à cozinha e preparou seu chá matinal. Subia as escadas enquanto levava o copo à boca.
     -Oscar, eu vou preparar o café da manhã. Levanta dessa cama senão você vai perder a aula. – Ele falou à porta do quarto de seu neto. – Oscar, você me ouviu?
     -Ouvi, vô. Desço em um minuto. – O garoto respondeu.
          Oscar se levantou de sua cama e caminhou sonolento ao banheiro. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova espinha aparecera. Tomou um banho e vestiu-se. Hora do café da manhã.
     -Você demorou. – Seu avô comentou para puxar assunto.
     -Não demorei não, vô. Desci rapidinho.
     -O que você vai fazer hoje após a escola?
     -Vou me encontrar com uns amigos. – Oscar falou, mordendo um pedaço de torrada, em seguida.
     -Mas, você estará em casa até às cinco? Lembre-se do nosso chazinho. E hoje não é apenas mais um chá qualquer, é o chá da tarde do dia do meu aniversário. –Senhor Charlie disse com um rosto de desapontamento.
     -Claro, vô, eu chegarei antes disso. Agora tenho que ir. –Oscar falou, pegando a mochila e levantando-se. Beijou a testa do seu avô e disse: -Feliz Aniversário, vô. Não é todo dia que se completa oitenta e seis anos. –Ele sorriu.
          Oscar era a única pessoa que tinha restado na vida de Charlie, assim como ele era a única família que Oscar tinha. Os dois eram, além de avô e neto, amigos, companheiros, irmãos.
          Na escola, a mesma nostalgia de sempre, nada novo: professores chatos, aulas chatas...
Oscar esperava ansiosamente pelo momento em que encontraria seus amigos.
O sinal tocou. No portão, Ruth, Leanne, Max, Tom e Tylar.
     -Olá, pessoal. –Oscar disse ao encontrá-los.
     -E aí, para onde vamos? –Ruth perguntou.
     -Há uma festa dois quarteirões daqui, num pub muito conhecido. Já devem estar nos esperando. Vamos? –Tylar falou.
     -Vamos lá. –Responderam.
       Festa. Alegria. Diversão. Bebidas. Músicas. Danças. Sorrisos. Bebidas. Comidas. Apresentações. Brincadeiras. Bebidas. Cigarros. Cigarros. Bebidas. Bebidas.
          Algumas estrelas já eram notáveis no céu; a lua aparecia timidamente, saindo de trás de nuvens escuras. E a festa continuava. Nada importava, estavam ali apenas para se divertir. Nada importava.
          Onze da noite.
     -O dia foi muito divertido com vocês. –Oscar falou.
     -Então a gente repete tudo semana que vem. –Max disse gargalhando.
     -Tchau, pessoal. –O garoto gritou, acenando para os seus amigos.
          Oscar pegou a chave no bolso e ao colocá-la na fechadura, percebeu algo: a porta estava aberta. “Que estranho”, pensou.
Era quase meia-noite e seu avô ainda não havia fechado a porta? Ele adentrou. As luzes estavam apagadas. Pensou em subir para o quarto, mas precisava de um copo d’água. Ligou a luz da sala e lá estava ele, de costas e sentado numa poltrona: seu velho e amado avô.
     -Vô? Por que o senhor ainda não foi dormir? –Oscar perguntou, aproximando-se lentamente. Vendo que não houve resposta, ele voltou a falar: - Vô? –Nada se ouvia.
          Oscar olhou para a mesinha da sala e, sobre a mesma, um bolo com uma vela derretida em cima, alguns biscoitos e uma xícara de chá frio. Olhou de volta para o seu avô, ele segurava outra xícara, seus olhos estavam abertos e, na sua face, uma lágrima secava.
Foi nesse momento que Oscar entendeu tudo: havia perdido. Perdido o aniversário do seu melhor amigo, perdido o octogésimo-sexto aniversário do seu companheiro, perdido os últimos momentos do seu irmão, mas, acima de tudo, havia perdido a chance de dizer adeus, de dizer as poucas palavras que teriam feito toda a diferença para aquele grande homem que tanto admirava: “Vô, eu te amo!”.

Lianderson Ferreira

Eighty-six Years Old

          The sun had risen; the birds started to sing and wake up the people from the neighbourhood with that graceful sound. The old ladies greeted on the street and opened the window of their houses to receive the light of that great day. Mr. Charlie had woken up as well. He put on his slippers, brushed his teeth and washed his face. Looked at himself in the mirror: a new sign of the age became visible on his face. Walked towards the kitchen and prepared his morning tea. He was going upstairs while he put the cup close to the lips.
-Oscar, I will prepare breakfast. Get up from that bed, otherwise you will miss the class. –He said by his grandson’s bedroom door. –Oscar, did you hear me?
-I heard you, grandpa. I will be downstairs in a moment. –the boy answered.
          Oscar got up from his bed and, still sleepy, walked towards his toilet. Washed his face. Looked at himself in the mirror: a new acne had appeared. He took a shower and got dressed. Breakfast time.
-You took a long time. –His grandfather said to make conversation.
-No, I didn’t, grandpa. I came downstairs very quickly.
-What are you going to do after school?
-I’m going to meet some friends. –Oscar said, biting a piece of toast.
-But, will you be at home until five? Remember our tea. And, today, it’s not just some usual tea, it’s my birthday’s afternoon tea. –Mr. Charlie said a bit disappointed.
-Of course, grandpa, I will be at home before that. Now, I’ve got to go. –Oscar said, while was grabbing his backpack and getting up. Kissed his grandfather’s forehead and whispered: -Happy Birthday, grandpa. Not every day someone turns eighty-six. –He smiled.
          Oscar was the only person that was left in Charlie’s life, as well as he was the only relative Oscar had. They two were, besides grandfather and grandson, friends, mates, brothers.
          At school, the same usual shit, nothing new: boring teachers, boring classes...
          Oscar was looking forward to the moment he would meet his friends.
          The bell rang. At the front gate, Ruth, Leanne, Max, Tom and Tylar.
-Hey, mates. –Oscar said as soon as he met them.
-Hey ya, where are we going to? –Ruth asked.
-There is a party two blocks from here, in a very well-known pub. They must be waiting for us. Shall we? –Tylar said.
-Let’s go! –They answered.
          Party. Joy. Fun. Drinks. Music. Dance. Smiles. Drinks. Food. Presentations. Games. Drinks. Cigarettes. Cigarettes. Drinks. Drinks.
          Some stars were already easily seen in sky; the moon was appearing timidly, getting out of the back of dark clouds. And the party was on. Nothing mattered, they were there just for fun. Nothing mattered.
          Eleven at night.
-The day was very funny with you all. –Oscar said.
-So, we can do it all over again next week. –Max said laughing.
-Bye, mates. –The boy screamed, waving to his friends.
          Oscar picked the key from his pocket and as soon as he put it in the lock, realised something: the door was open. “That’s weird”, he thought.
          It was almost midnight and his grandfather hadn’t closed the door yet? He entered. The lights were off. He thought about going upstairs to his bedroom, but needed a glass of water. He turned on the living room lights and there he was, back turned and sitting on an armchair: his old and beloved grandfather.
-Grandpa? Why haven’t you slept yet? –Oscar asked, getting closer slowly. As soon as he noticed there was no answer, he spoke again: -Grandpa? –Nothing was heard.
          Oscar looked at the little desk in the living room and, on it, a cake with a melted candle, some biscuits and a cup of cold tea. He looked back to his grandfather, he was holding another cup of tea, his eyes were open and, on his face, some tears were drying.
          That was exactly when Oscar understood everything: He had missed. Missed his best friend’s birthday, missed his mate’s eighty-sixth birthday, missed his brother’s last moments, but, besides everything, he had missed the chance to say goodbye, to say those few words that would have made all the difference to that great man that he admired so much: “Grandpa, I love you!”.

Lianderson Ferreira


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Passos

       Por volta das onze badaladas do relógio, numa noite sombria, sem lua, nem estrelas, eu voltava para casa após um longo e cansativo dia de trabalho, caminhando por uma rua escura e, aparentemente, deserta. O Silêncio era gritante. Seria possível ouvir alfinetes caírem ao chão. Até que, de repente, eu ouvi passos. Passos fortes e apressados, como quando se quer alcançar alguém.
       Eu olhava para trás, o barulho pausava e eu nada via. Continuei andando, dessa vez um pouco menos lento. E o barulho dos passos recomeçava. O que seria aquilo? Eu não estava nem um pouco curioso para descobrir. Apressei-me. E os passos ocultos acompanharam meu ritmo. Eu corri. Não sabia do que estava fugindo, mas algo me dizia que eu tinha de correr. Tão rápido quanto eu fosse capaz. Os passos também o fizeram. Gritei.
       Eu consegui correr mais rápido ainda. Aquela rua parecia nunca ter fim. Nenhum carro, nenhuma casa. Apenas os passos e eu.
       Parei por um segundo, tomei fôlego e tentei ouvir os passos. Nem precisei me esforçar tanto, eles continuavam firmes e cada vez mais apressados. O que seria aquilo? Indaguei-me novamente. Mas os passos se aproximavam. Não conseguiria manter o ritmo por muito tempo. Eu cambaleei, tropecei inúmeras vezes, mas eu sabia que não podia parar. O barulho estava cada vez mais alto, mais forte, mais perto. Os passos haviam me alcançado. Então, subitamente, eu caí da cama. E Acordei!

Lianderson Ferreira

sábado, 13 de dezembro de 2014

Footsteps

       Around 11.00 O’clock p.m., in a dark evening, with no moon, no stars, I was coming back home after a long and exhaustive day of work, walking along a dark street and, apparently, desert. The silence was loud. It would be possible to hear pins dropping on the ground. But, suddenly, I heard some footsteps. Strong and hurried footsteps, as if they were trying to reach someone.
       I looked back, the noise paused and I saw nothing. I continued to walk, a little less slow by this time. And the noise of the footsteps restarted. What would that be? I was not even a bit curious to find out. I hurried. And the hidden footsteps followed my rhythm. I ran. I didn’t know from what I was running away, but something told me that I had to run as quickly as I was able to. The footsteps did the same thing. I shouted.
       I got to run even quicker. That street seemed to never end. No cars, no houses. Only the footsteps and me.
       I stopped for a second, breathed in and tried to hear the footsteps. I didn’t need to try that much, they kept firm and increasingly hurried. What would that be? I wondered once again. But the footsteps were getting closer. I wouldn’t be able to keep the rhythm any longer. I teetered, stumbled several times, but I knew that I couldn’t stop. The noise was louder and louder, stronger, closer. The footsteps had reached me. So, suddenly, I fell off my bed. And woke up!

Lianderson Ferreira

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lembranças

Batiam quinze horas no relógio da sala, levantou-se do sofá e foi à janela. Era uma tarde chuvosa de domingo. Lá fora o céu estava escuro, mas não tão escuro quanto seu coração.
Fazia exatamente três anos que seu filho partira para a guerra. No quarto do seu garoto, fez questão de manter tudo como ele o deixou. O mesmo lençol, a mesma escrivaninha desarrumada que ainda continha o livro de Robert Musil aberto na página noventa e oito, fez questão até mesmo de manter sobre ela a xícara de chá que ele costumava tomar antes de dormir.
O marido havia falecido há poucos meses, jamais experimentara tamanha solidão. Achava-se velha demais para os passeios matinais ou ida às missas do domingo e já não enxergava tão bem para ocupar seu tempo em uma máquina de costura.
Fechou a janela e caminhou até onde ficava o velho piano. Sentou-se, limpou um pouco da poeira que havia se formado sobre ele e arriscou algumas notas. Lembrou-se de quando seu marido costumava tocar um bom jazz nas noites de segunda quando voltava da repartição pública enquanto ela o acompanhava tomando um vinho francês. Pôs-se de pé e começou a chorar. Chorou o que jamais havia chorado ao decorrer daqueles três anos, pois percebera que não teria seu marido de volta e que seu filho nunca regressaria ao lar.
Foi então que tomou uma decisão. Saiu da sala sem pressa e foi em direção ao banheiro, pegou um frasco do seu medicamento que Adalberto, seu médico particular, havia prescrito para ajuda-la a dormir. Passou na cozinha e trouxe consigo para o quarto um copo d’água. Tomou dez comprimidos de uma só vez. Pensou que tirar sua vida seria muito mais fácil. Deitou em sua cama e esperou lentamente o sono chegar, e no dia seguinte não havia mais lembranças, não havia mais choro, não havia mais dor... não havia mais nada além da certeza da morte...

Esta história foi escrita por uma das minhas amigas,
Amanda Luna.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Memories

The living-room clock struck 3:00 p.m., she got up from the sofa and went to the window. It was a rainy Sunday afternoon. It was dark outside, but not as dark as her heart.
It had been exactly three years since her son had left to the war. In her boy’s bedroom, she insisted on keeping everything as he had left. The same bed sheet, the same messed-up desk which still had Robert Musil’s book open on page ninety-eight, she even insisted on keeping on it the cup of tea that he used to drink before sleeping.
Her husband had passed away a few months ago; she had never experienced that loneliness. She used to think she was too much old for morning walks or comings to Sunday masses and she was not able to see that much to pass her time at a sewing machine.
She closed the window and walked towards where the old piano was. She sat down, cleaned up some powder which had gathered over it and tried some notes. She remembered the time when her husband used to play some good jazz on Monday nights, when he came back from the government department while she followed him by drinking some French wine. She made herself be standing and started crying. She cried as much as she had never cried during those three years, because she realised that she wouldn’t have her husband back and her son would never come back home.
That was the moment when she made a decision. She left the living room without hurry and walked towards the bathroom, picked up a bottle of her medication which Adalberto, her private doctor, had prescribed to help her sleep. She passed by the kitchen and brought a glass of water with her to the bedroom. She took ten pills at once. She thought that taking away her own life would be a lot easier. She lied down on her bed and waited for the sleep to come up to her slowly, and, the next day, there were no memories anymore, no more tears, no more pain... there wasn’t anything else but the certainty of death...

This short story was written by one of my mates, 
Amanda Luna.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Um Anjo Caído

            Bem... Em primeiro lugar, eu sou a narradora e você nunca saberá quem eu sou, você não precisa ver meu exterior para conhecer profundamente o que eu sou por dentro. Eu vou te contar uma história sobre um anjo, um caído, para ser específica. Não se preocupe, ele é caído, mas ele não é nem um pouco mau! Você deve estar se perguntando "por que ele é caído se ele não é um anjo mau?" e, agora, você deve compreender que amor intenso também pode tirar você do seu caminho e isso não é uma coisa ruim. Do começo:
          Miguel não era muito alto, na verdade, muito baixo... olhos minúsculos, seu tom de pele era dourado e brilhante como a cor dos seus olhos, ele seria um anjo normal, se ele não tivesse aquelas grandes e belas asas que podiam levá-lo para qualquer lugar que ele quisesse. Mas a coisa mais importante sobre ele é que, além da beleza, ele estava sempre concentrado em algo bom, ele estava sempre tentando encontrar seu amor, ele não queria algo ou alguém para chamar dele, ele queria algo ou alguém para preencher seu coração bom e vazio e é aí que a história começa...
           Era um dia normal na vida dele, ele estava voando ao redor e conhecendo pessoas novas até o momento que ele viu uma bela garota, mas ela não era como as outras que ele já tinha visto, aquelas bochechas vermelhas e aqueles olhos o pegaram tão facilmente quanto roubar um doce de uma criança. Ele não poderia deixá-la ir sem falar com ela, ele tentou se aproximar várias vezes, mas a garota não notou o anjo e isso fez Miguel perceber que a moça não estava bem, que ela não estava protegida, ela precisava da atenção dele.
          Ele a seguiu por quinze dias consecutivos e ele descobriu que ela estava sempre se metendo em problemas e que ela tinha um lugar secreto, um lugar aleatório com árvores e areia; ele também encontrou uma maneira de contactá-la: ele deixava uma parte de sua pena todos os dias que ela estava lá, mas ele sabia que, fazendo aquilo, ele perderia sua vida como um anjo e se tornaria um humano e foi isso o que aconteceu. Sua queda foi tão grande que ele também perdeu seus poderes, portanto ele era um anjo caído sem nenhum poder, ele poderia ser visto mas não poderia ser sentido... Então, ele era aquele que precisava de alguém para ajudá-lo; a garota, pela primeira vez, sentiu a presença dele e o ajudou.
          Com isso, ele aprendeu uma lição com ela: ele nunca precisou de um amor para vê-lo, ele sempre precisou de alguém para sentir a sua presença.

Esse conto foi escrito por uma das minhas alunas, Rebeca Bivar,
como forma de avaliar o uso da língua para expressar
os seus sentimentos de uma maneira criativa.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A Fallen Angel

Well... First of all, I’m the narrator and you shall never know who I am, you don't need to see my outside to know in deep what I am from the inside. I'm going to tell you a story about an angel, a fallen one, to be specific. Don't you worry, he's fallen but he's not mean at all! You must be wondering "why is he fallen if he isn't a bad angel?" and now you must comprehend that intense love can also take you away from your path and it isn’t a bad thing. From the beginning:
Miguel wasn’t very tall, actually, pretty short... Tiny eyes, his skin tone was gold and bright as the colour of his eyes, he would be an ordinary angel, if he didn’t have those beautiful and big wings that could take him anywhere he wanted to. But the most important thing about him is that, besides the beauty, he was usually concentrated in something good, he was always trying to find his love, he didn't want something or someone to call his, he wanted something or someone to fill his empty and good heart and that is when the story begins…
It was a normal day in his life, he was flying around and meeting new people until the moment he saw a pretty girl, but she wasn’t like the others that he had ever seen, those red cheeks and those eyes got him as easily as stealing a child’s candy. He couldn’t let her go without talking to her, he tried to approach several times, but the girl didn’t notice the angel and that made Miguel realise that the girl wasn’t okay, that she wasn’t protected, she needed his attention.
He followed her for fifteen days in a row and he found out that she has always been putting herself in troubles and that she had a secret place, a random place with trees and sand; he also found a way to contact her: he left a part of his feather every day that she was there, but he knew that, by doing that, he would lose his life as an angel and he would become a human and that was what happened. His fall was so big that he also lost his powers, therefore he was a fallen angel without any power, he could be seen but couldn’t be felt… Then, he was the one who needed someone to help him; the girl, for the first time, felt his presence and helped him.
Thus, he learned a lesson with her, he’s never needed a love to see him, he has always needed someone to feel his presence.

This short story was written by one of my students, Rebeca Bivar,
as a way to evaluate the use of the English language
to express her feelings in a creative way.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Clare

       Clare é uma garota intrigante que eu conheci durante uma das minhas viagens ao redor do mundo; ela tem olhos estonteantes, os quais me hipnotizaram desde a primeira vez que eu a vi. Talvez ela tenha dez ou onze anos... Eu não tenho certeza da idade dela, mas eu posso dizer que ela não parece ter apenas aquela idade. Ela tem sabedoria e conhecimento inacreditáveis que tornam a sua alma cem anos mais experiente. Ela tem uma pele branca, um longo cabelo preto e um sorriso curioso que está sempre no seu rosto.
        Eu a conheci quando eu estava voltando para o meu hotel após um passeio na praia de Youghal, na Irlanda. Ela estava sentada em uma pequena praça brincando com uma das suas bonecas e, de repente, ela se levantou e começou a me encarar com uma expressão curiosa.
        -Ei pequenino, o que você está fazendo aqui? –Ela me perguntou. Eu fiquei surpreso com aquela atitude e levei alguns segundos para responder.
         -Oh, pequenino? –Eu sorri. –Eu estou voltando para o meu hotel!
        -Não, você não entende minha pergunta, o que você está fazendo aqui? –Ela repetiu com um sorriso.
       -Pequena, o que você quer dizer com isso? –Naquele momento, eu estava bem confuso.
        -Você sabe, eu tenho certeza. Eu estou me perguntando por que você viajou tão longe para encontrar algo que você pode encontrar dentro de você mesmo. –Ela olhou para mim calmamente e gesticulou para eu sentar ao lado dela.
       -O que eu estou procurando? –Ela continuou a brincar com a boneca dela. Depois de um longo tempo em silêncio, ela me encarou novamente com aqueles olhos que me hipnotizavam e respondeu calmamente.
       -Eu senti um vazio dentro de você desde o primeiro dia que você chegou nessa cidade. Eu tentei descobri o porquê. Eu não pude ver nada, exceto uma alma solitária procurando um lugar para ficar em paz. Na verdade, antes de te ver, eu senti que eu tinha o compromisso de mostrar-lhe um modo de encontrar essa paz. –Ela pegou um pouco de areia, sorriu novamente e jogou a areia em uma pequena poça. –Venha ver a mágica, pequenino! –Eu levantei rapidamente e me ajoelhei perto de Clare. –Você vê a mágica?
       -Desculpe, mas eu não vejo nada a não ser água e areia.
       -Esse é o seu problema, você está sempre procurando paz, mas você não entende que a paz está em tudo que pode ficar em harmonia com a natureza. Veja... –Ela repetiu o que ela tinha feito. –Olhe através da água, mesmo com a visita inesperada dos grãos de areia, depois de algum tempo, ela consegue se ajustar ao seu ritmo calmo novamente. Está tudo ligado à aceitação, a água está em paz porque ela aceita o que quer que venha, bom ou ruim. Quando ela aceita, os intrusos se tornam parte de seu reflexo. –Eu assisti à água enquanto ela soluçava. Quando eu olhei para o meu lado, a garotinha tinha ido embora, deixando apenas a sua boneca perto do monte de areia. Depois de algum tempo processando o que tinha acontecido, eu peguei a boneca e vi que estava escrito: “pertence à Clare”...
      Sem dúvida, Clare foi uma das melhores coisas que já aconteceu comigo. Eu estou dizendo isso porque, em alguns minutos, ela criou dentro de mim um sentimento marcante e ela me deu a forma de encontrar minha paz sozinha. Ela me trouxe mais que tudo e, de alguma forma, ela me ensinou como ver as coisas com outros olhos, talvez com olhos estonteantes...


Esse conto foi escrito por uma das minhas alunas, Maryna Viana,
como forma de avaliar o uso da língua para expressar
os seus sentimentos de uma maneira criativa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Morra, Demônio!

Ele o odiava. Na verdade, eles se odiavam. Estava certo? Aquilo não era considerado pecado? Não importa. Não havia qualquer sentimento bom envolvido no relacionamento entre os dois. Viviam sob o mesmo teto, sempre se encontrando no meio da sala de estar ou na cozinha, eles precisavam suportar um ao outro. Eles eram tão diferentes. Ter que ver aqueles rostos com o qual nenhum deles poderia lidar era horrível.
Certa noite, após outra briga diária, o garoto se trancou no quarto, enraivecido. Não suportava mais aquilo. Pensava em diversos meios para acabar com aquela tortura e mandar aquele ser de volta para as sombras, lugar de onde ele nunca deveria ter saído. A voz daquele monstro, seu rosto, sua forma de andar, suas roupas, tudo irritava o pobre garoto. Principalmente, saber que ainda respiravam o mesmo ar e que habitavam o mesmo mundo. Não! Não havia lugar para os dois, só um poderia viver.
O tempo passava. A madrugada chegou rápido. E o garoto ainda estava acordado. Não conseguia dormir, não com aquele bicho respirando no quarto ao lado. Ele desceu da cama, ficou de pé, abriu a porta do quarto e direcionou-se ao aconchego do monstro. Ao abrir a porta, lá estava ele. Dormindo tão confortavelmente como o demônio o faz no inferno. A raiva tomou conta do garoto e, junto com ela, surgiu uma ideia, ao mesmo tempo tão fria e tão excitante.
Caminhou lentamente até a cozinha da casa. Não podia fazer barulho. Acendeu o fogão, pegou uma panela cheia de água e colocou para esquentar. Esperou ansiosamente.
-Tempo, maldito tempo, fizestes com que eu esperasse bastante e eu pensei que você iria dar um jeito nisso, mas não o fizestes. Não se preocupe, isso acaba agora. –O menino suspirou olhando para o teto.
Apanhou um pano que estava no chão, apagou o fogo e pegou a panela com cuidado. Caminhava lentamente, muito lentamente, tentando evitar até mesmo respirar, para ter certeza de que nada pudesse acordar o demônio do seu sono profundo. Empurrou a porta usando um dos seus pés, adentrou, encarou, pela última vez, aquele rosto que nunca mais seria o mesmo, aquele demônio que iria encontrar os seus amigos no inferno.
De repente, em um movimento rápido, derramou a água quente no ouvido do ser adormecido, espalhando-a por toda a cabeça. O demônio acordou. Deu um grito fraco e rápido, calando-se com a quantidade de água que entrara em sua boca. O garoto sorriu alto e sentiu um alívio, um alívio fantástico e confortável, mesmo após ter matado o seu próprio pai.

Lianderson Ferreira

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Die, you devil!

      He hated him. Actually, they hated one another. Was that right? Wasn’t it considered as a sin? It doesn’t matter. There wasn’t any kind of good feeling involved with their relation. They lived under the same ceiling, always meeting in the middle of the living room or the kitchen, they needed to bear each other. They were so different. Having to see those faces that none of them could deal with was awful.
     In some evening, after another daily fight, the boy locked himself in the bedroom, mad. He couldn’t bear that anymore. He thought of several ways to end that torture and send that being back to the shadows, the place which he should have never left. That monster’s voice, his face, his walking, his clothes, everything bothered the poor boy. Mainly, knowing that they still breathed the same air and inhabited the same world. NO! There was no place for both, only one could survive.
     The time passed by. The dawn came out quickly. And the boy was still awake. He wasn’t being able to sleep, not with that beast breathing in the next room. He got off his bed, made himself be standing, opened the door and went straightforwardly to the monster’s place. As soon as the boy opened the other door, he was there: sleeping so comfortably as the devil does in hell. All that anger controlled him and, along with it, an idea came out of the blue, so cold and so exciting at the same time.
       He walked smoothly towards the kitchen of the house. He couldn’t be noisy. He lit the cooker, got a pan full of water and warmed it. He waited anxiously.
         -Time, damn freaking time, you made me wait a lot and I thought you would fix that for me, but you didn’t. Don’t worry, nevertheless, this ends now. –The boy whispered staring at the roof.
      He picked up some cloth from the ground, unlit the fire and carried the pan carefully. He walked slowly, very smoothly, trying to avoid breathing in order to make sure that nothing could wake the devil up from his deep sleep. He pulled the door using one of his feet, went in, stared at, for the last time, that face which would never be the same again, that devil who was going to meet his mates in hell.
     Suddenly, in a swift motion, he poured out the warm water into the sleeping being’s ear, spreading it for all over his head. The devil woke up. He screamed weakly and quickly, shut his mouth up with the amount of water which entered into his mouth. The boy laughed out loud and felt relieved, a fantastic and comfortable relief, even after killing his own dad.

Lianderson Ferreira