Batiam
quinze horas no relógio da sala, levantou-se do sofá e foi à janela. Era uma
tarde chuvosa de domingo. Lá fora o céu estava escuro, mas não tão escuro
quanto seu coração.
Fazia
exatamente três anos que seu filho partira para a guerra. No quarto do seu
garoto, fez questão de manter tudo como ele o deixou. O mesmo lençol, a mesma
escrivaninha desarrumada que ainda continha o livro de Robert Musil aberto na
página noventa e oito, fez questão até mesmo de manter sobre ela a xícara de
chá que ele costumava tomar antes de dormir.
O
marido havia falecido há poucos meses, jamais experimentara tamanha solidão.
Achava-se velha demais para os passeios matinais ou ida às missas do domingo e
já não enxergava tão bem para ocupar seu tempo em uma máquina de costura.
Fechou
a janela e caminhou até onde ficava o velho piano. Sentou-se, limpou um pouco
da poeira que havia se formado sobre ele e arriscou algumas notas. Lembrou-se
de quando seu marido costumava tocar um bom jazz nas noites de segunda quando
voltava da repartição pública enquanto ela o acompanhava tomando um vinho
francês. Pôs-se de pé e começou a chorar. Chorou o que jamais havia chorado ao
decorrer daqueles três anos, pois percebera que não teria seu marido de volta e
que seu filho nunca regressaria ao lar.
Foi
então que tomou uma decisão. Saiu da sala sem pressa e foi em direção ao
banheiro, pegou um frasco do seu medicamento que Adalberto, seu médico
particular, havia prescrito para ajuda-la a dormir. Passou na cozinha e trouxe
consigo para o quarto um copo d’água. Tomou dez comprimidos de uma só vez.
Pensou que tirar sua vida seria muito mais fácil. Deitou em sua cama e esperou
lentamente o sono chegar, e no dia seguinte não havia mais lembranças, não
havia mais choro, não havia mais dor... não havia mais nada além da certeza da
morte...
Esta história foi escrita por uma das minhas amigas,
Amanda Luna.

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