O
sol nascera; os pássaros puseram-se a cantar e a acordar as pessoas do bairro
com aquele som gracioso. As senhoras cumprimentavam-se na rua e abriam as
janelas de suas casas para receber a luz daquele dia grandioso. O senhor
Charlie também havia acordado. Calçou seus chinelos, escovou os dentes e lavou
o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova marca da idade tornava-se visível em seu
rosto. Dirigiu-se à cozinha e preparou seu chá matinal. Subia as escadas
enquanto levava o copo à boca.
-Oscar, eu vou preparar o café da manhã. Levanta dessa cama senão você
vai perder a aula. – Ele falou à porta do quarto de seu neto. – Oscar, você me
ouviu?
-Ouvi, vô. Desço em um minuto. – O garoto
respondeu.
Oscar se levantou de sua cama e
caminhou sonolento ao banheiro. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova
espinha aparecera. Tomou um banho e vestiu-se. Hora do café da manhã.
-Você demorou. – Seu avô comentou para
puxar assunto.
-Não demorei não, vô. Desci rapidinho.
-O
que você vai fazer hoje após a escola?
-Vou me encontrar com uns amigos. – Oscar
falou, mordendo um pedaço de torrada, em seguida.
-Mas, você estará em casa até às cinco?
Lembre-se do nosso chazinho. E hoje não é apenas mais um chá qualquer, é o chá
da tarde do dia do meu aniversário. –Senhor Charlie disse com um rosto de
desapontamento.
-Claro, vô, eu chegarei antes disso. Agora
tenho que ir. –Oscar falou, pegando a mochila e levantando-se. Beijou a testa
do seu avô e disse: -Feliz Aniversário, vô. Não é todo dia que se completa
oitenta e seis anos. –Ele sorriu.
Oscar era a única pessoa que tinha
restado na vida de Charlie, assim como ele era a única família que Oscar tinha.
Os dois eram, além de avô e neto, amigos, companheiros, irmãos.
Na escola, a mesma nostalgia de
sempre, nada novo: professores chatos, aulas chatas...
Oscar
esperava ansiosamente pelo momento em que encontraria seus amigos.
O
sinal tocou. No portão, Ruth, Leanne, Max, Tom e Tylar.
-Olá, pessoal. –Oscar disse ao
encontrá-los.
-E aí, para onde vamos? –Ruth perguntou.
-Há uma festa dois quarteirões daqui, num
pub muito conhecido. Já devem estar nos esperando. Vamos? –Tylar falou.
-Vamos lá. –Responderam.
Festa. Alegria. Diversão. Bebidas.
Músicas. Danças. Sorrisos. Bebidas. Comidas. Apresentações. Brincadeiras.
Bebidas. Cigarros. Cigarros. Bebidas. Bebidas.
Algumas estrelas já eram notáveis no
céu; a lua aparecia timidamente, saindo de trás de nuvens escuras. E a festa
continuava. Nada importava, estavam ali apenas para se divertir. Nada
importava.
Onze da noite.
-O dia foi muito divertido com vocês.
–Oscar falou.
-Então a gente repete tudo semana que vem.
–Max disse gargalhando.
-Tchau, pessoal. –O garoto gritou,
acenando para os seus amigos.
Oscar pegou a chave no bolso e ao
colocá-la na fechadura, percebeu algo: a porta estava aberta. “Que estranho”,
pensou.
Era
quase meia-noite e seu avô ainda não havia fechado a porta? Ele adentrou. As
luzes estavam apagadas. Pensou em subir para o quarto, mas precisava de um copo
d’água. Ligou a luz da sala e lá estava ele, de costas e sentado numa poltrona:
seu velho e amado avô.
-Vô? Por que o senhor ainda não foi
dormir? –Oscar perguntou, aproximando-se lentamente. Vendo que não houve
resposta, ele voltou a falar: - Vô? –Nada se ouvia.
Oscar olhou para a mesinha da sala e,
sobre a mesma, um bolo com uma vela derretida em cima, alguns biscoitos e uma
xícara de chá frio. Olhou de volta para o seu avô, ele segurava outra xícara,
seus olhos estavam abertos e, na sua face, uma lágrima secava.
Foi
nesse momento que Oscar entendeu tudo: havia perdido. Perdido o aniversário do
seu melhor amigo, perdido o octogésimo-sexto aniversário do seu companheiro,
perdido os últimos momentos do seu irmão, mas, acima de tudo, havia perdido a
chance de dizer adeus, de dizer as poucas palavras que teriam feito toda a
diferença para aquele grande homem que tanto admirava: “Vô, eu te amo!”.
Lianderson Ferreira