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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lembranças

Batiam quinze horas no relógio da sala, levantou-se do sofá e foi à janela. Era uma tarde chuvosa de domingo. Lá fora o céu estava escuro, mas não tão escuro quanto seu coração.
Fazia exatamente três anos que seu filho partira para a guerra. No quarto do seu garoto, fez questão de manter tudo como ele o deixou. O mesmo lençol, a mesma escrivaninha desarrumada que ainda continha o livro de Robert Musil aberto na página noventa e oito, fez questão até mesmo de manter sobre ela a xícara de chá que ele costumava tomar antes de dormir.
O marido havia falecido há poucos meses, jamais experimentara tamanha solidão. Achava-se velha demais para os passeios matinais ou ida às missas do domingo e já não enxergava tão bem para ocupar seu tempo em uma máquina de costura.
Fechou a janela e caminhou até onde ficava o velho piano. Sentou-se, limpou um pouco da poeira que havia se formado sobre ele e arriscou algumas notas. Lembrou-se de quando seu marido costumava tocar um bom jazz nas noites de segunda quando voltava da repartição pública enquanto ela o acompanhava tomando um vinho francês. Pôs-se de pé e começou a chorar. Chorou o que jamais havia chorado ao decorrer daqueles três anos, pois percebera que não teria seu marido de volta e que seu filho nunca regressaria ao lar.
Foi então que tomou uma decisão. Saiu da sala sem pressa e foi em direção ao banheiro, pegou um frasco do seu medicamento que Adalberto, seu médico particular, havia prescrito para ajuda-la a dormir. Passou na cozinha e trouxe consigo para o quarto um copo d’água. Tomou dez comprimidos de uma só vez. Pensou que tirar sua vida seria muito mais fácil. Deitou em sua cama e esperou lentamente o sono chegar, e no dia seguinte não havia mais lembranças, não havia mais choro, não havia mais dor... não havia mais nada além da certeza da morte...

Esta história foi escrita por uma das minhas amigas,
Amanda Luna.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Memories

The living-room clock struck 3:00 p.m., she got up from the sofa and went to the window. It was a rainy Sunday afternoon. It was dark outside, but not as dark as her heart.
It had been exactly three years since her son had left to the war. In her boy’s bedroom, she insisted on keeping everything as he had left. The same bed sheet, the same messed-up desk which still had Robert Musil’s book open on page ninety-eight, she even insisted on keeping on it the cup of tea that he used to drink before sleeping.
Her husband had passed away a few months ago; she had never experienced that loneliness. She used to think she was too much old for morning walks or comings to Sunday masses and she was not able to see that much to pass her time at a sewing machine.
She closed the window and walked towards where the old piano was. She sat down, cleaned up some powder which had gathered over it and tried some notes. She remembered the time when her husband used to play some good jazz on Monday nights, when he came back from the government department while she followed him by drinking some French wine. She made herself be standing and started crying. She cried as much as she had never cried during those three years, because she realised that she wouldn’t have her husband back and her son would never come back home.
That was the moment when she made a decision. She left the living room without hurry and walked towards the bathroom, picked up a bottle of her medication which Adalberto, her private doctor, had prescribed to help her sleep. She passed by the kitchen and brought a glass of water with her to the bedroom. She took ten pills at once. She thought that taking away her own life would be a lot easier. She lied down on her bed and waited for the sleep to come up to her slowly, and, the next day, there were no memories anymore, no more tears, no more pain... there wasn’t anything else but the certainty of death...

This short story was written by one of my mates, 
Amanda Luna.