domingo, 19 de abril de 2015

Oitenta e Seis Anos

O sol nascera; os pássaros puseram-se a cantar e a acordar as pessoas do bairro com aquele som gracioso. As senhoras cumprimentavam-se na rua e abriam as janelas de suas casas para receber a luz daquele dia grandioso. O senhor Charlie também havia acordado. Calçou seus chinelos, escovou os dentes e lavou o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova marca da idade tornava-se visível em seu rosto. Dirigiu-se à cozinha e preparou seu chá matinal. Subia as escadas enquanto levava o copo à boca.
     -Oscar, eu vou preparar o café da manhã. Levanta dessa cama senão você vai perder a aula. – Ele falou à porta do quarto de seu neto. – Oscar, você me ouviu?
     -Ouvi, vô. Desço em um minuto. – O garoto respondeu.
          Oscar se levantou de sua cama e caminhou sonolento ao banheiro. Lavou o rosto. Olhou-se no espelho: uma nova espinha aparecera. Tomou um banho e vestiu-se. Hora do café da manhã.
     -Você demorou. – Seu avô comentou para puxar assunto.
     -Não demorei não, vô. Desci rapidinho.
     -O que você vai fazer hoje após a escola?
     -Vou me encontrar com uns amigos. – Oscar falou, mordendo um pedaço de torrada, em seguida.
     -Mas, você estará em casa até às cinco? Lembre-se do nosso chazinho. E hoje não é apenas mais um chá qualquer, é o chá da tarde do dia do meu aniversário. –Senhor Charlie disse com um rosto de desapontamento.
     -Claro, vô, eu chegarei antes disso. Agora tenho que ir. –Oscar falou, pegando a mochila e levantando-se. Beijou a testa do seu avô e disse: -Feliz Aniversário, vô. Não é todo dia que se completa oitenta e seis anos. –Ele sorriu.
          Oscar era a única pessoa que tinha restado na vida de Charlie, assim como ele era a única família que Oscar tinha. Os dois eram, além de avô e neto, amigos, companheiros, irmãos.
          Na escola, a mesma nostalgia de sempre, nada novo: professores chatos, aulas chatas...
Oscar esperava ansiosamente pelo momento em que encontraria seus amigos.
O sinal tocou. No portão, Ruth, Leanne, Max, Tom e Tylar.
     -Olá, pessoal. –Oscar disse ao encontrá-los.
     -E aí, para onde vamos? –Ruth perguntou.
     -Há uma festa dois quarteirões daqui, num pub muito conhecido. Já devem estar nos esperando. Vamos? –Tylar falou.
     -Vamos lá. –Responderam.
       Festa. Alegria. Diversão. Bebidas. Músicas. Danças. Sorrisos. Bebidas. Comidas. Apresentações. Brincadeiras. Bebidas. Cigarros. Cigarros. Bebidas. Bebidas.
          Algumas estrelas já eram notáveis no céu; a lua aparecia timidamente, saindo de trás de nuvens escuras. E a festa continuava. Nada importava, estavam ali apenas para se divertir. Nada importava.
          Onze da noite.
     -O dia foi muito divertido com vocês. –Oscar falou.
     -Então a gente repete tudo semana que vem. –Max disse gargalhando.
     -Tchau, pessoal. –O garoto gritou, acenando para os seus amigos.
          Oscar pegou a chave no bolso e ao colocá-la na fechadura, percebeu algo: a porta estava aberta. “Que estranho”, pensou.
Era quase meia-noite e seu avô ainda não havia fechado a porta? Ele adentrou. As luzes estavam apagadas. Pensou em subir para o quarto, mas precisava de um copo d’água. Ligou a luz da sala e lá estava ele, de costas e sentado numa poltrona: seu velho e amado avô.
     -Vô? Por que o senhor ainda não foi dormir? –Oscar perguntou, aproximando-se lentamente. Vendo que não houve resposta, ele voltou a falar: - Vô? –Nada se ouvia.
          Oscar olhou para a mesinha da sala e, sobre a mesma, um bolo com uma vela derretida em cima, alguns biscoitos e uma xícara de chá frio. Olhou de volta para o seu avô, ele segurava outra xícara, seus olhos estavam abertos e, na sua face, uma lágrima secava.
Foi nesse momento que Oscar entendeu tudo: havia perdido. Perdido o aniversário do seu melhor amigo, perdido o octogésimo-sexto aniversário do seu companheiro, perdido os últimos momentos do seu irmão, mas, acima de tudo, havia perdido a chance de dizer adeus, de dizer as poucas palavras que teriam feito toda a diferença para aquele grande homem que tanto admirava: “Vô, eu te amo!”.

Lianderson Ferreira

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