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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Líquido Vermelho

Estava sentada ali há horas, pensando. Queria ver o filme de toda a sua vida dentro da sua cabeça, toda a sua história, todas as memórias guardadas lá dentro. Não sabia por quê. Três deles já haviam passado. O que estava esperando? Suspeitava ser o medo, porque nunca fora corajosa, sempre desistira das coisas difíceis e fugira das complicações. Ora não era isso o que estava prestes a fazer mais uma vez? Desistir? Pensou ser covardia também. Estava fugindo pela centésima vez, contudo, de uma maneira um tanto mais radical. Mas continuava sendo uma fuga. Escapismo. Sairia dali assim? Reconhecida por sua covardia? Perguntou a si mesma se não se tratava de uma pontinha de esperança lá no fundo do seu peito. Esperança de que tudo mudasse; de que as coisas se tornassem melhores com o tempo; de que todas aquelas frases de inspiração e encorajamento fizessem sentido finalmente. Mas, também podia ser apenas aquela espera eterna de que ele voltasse. O único ser que entrou na vida dela e a fez feliz de verdade.
Lembrou-se daqueles dias em que acordava e lá estava ele: deitado de bruços, o cabelo bagunçado e o ronco baixo que mais parecia música aos seus ouvidos. Lembrou-se das vezes em que ela era acordada com um beijo na testa, um sorriso amarelo bem na sua frente e um prato cheio de frutas para o café da manhã. Lembrou-se ainda do primeiro beijo. Ah, aquele beijo. Ela nem sabia como se sentir ao lembrar: se chorava por ser algo impossível agora ou se sorria por ter sido tão lindo.

Era a sexta declaração de amor dele para ela. Diamond nunca fora uma moça fácil de lidar. Ignorava todos os garotos que por ela se interessassem. Não porque não quisesse se sentir atraente, mas porque tinha medo do que poderia vir a ser, a acontecer. E de fato, aconteceu.
Walter lhe trouxe flores; Diamond pisou em cima delas. Walter comprou-lhe uma caixa de chocolate importado; Diamond jogou dentro do bueiro que ficava na frente de sua casa. Walter lhe trouxe seu sorvete favorito; Diamond cuspiu nele e ignorou toda aquela baunilha congelada. Walter sabia da paixão dela por fotografias e deu-lhe uma câmera digital para ela guardar as belas paisagens da natureza; Diamond  jogou-a dentro do rio; Walter fez um desenho lindo de Diamond sorrindo graciosamente, mas ela picou o papel em pedacinhos. Na sexta tentativa, ele não trouxe nada nas mãos. Sempre chegava com algo. Chegava sorridente e saía com as mãos abanando e o rosto com aquela expressão de dor. Dessa vez, veio chorando. Olhou dentro dos olhos de Diamond e disse: “Eu não estou desistindo. Não se desiste de algo tão lindo, de alguém tão encantadora. Mas meu coração não aguenta mais ser tratado como flores pisoteadas ou como papeis picados. Eu te amo, Diamond. Mas não quero me sentir assim, não consigo mais.”
Diamond o olhava sem entender o que aquelas palavras significavam. Observou-o virar as costas e se afastar. Seu coração apertou. Não poderia permitir. O que ele estava fazendo? Ele não a amava? Por que estava indo embora? “Ele não pode me deixar. Não pode!”, pensou. Correu atrás dele e o entrelaçou em seus braços. Ele correspondeu com aquele beijo, o primeiro beijo da vida dela, o beijo mais lindo de todos: suave, doce e apaixonado.
E ambos sorriram.

Após essa linda memória, Diamond saiu do seu transe, devido a um barulho alto na estação. O quarto havia acabado de passar. Ela o ignorou. Ainda não acabara. Era a vez da memória sofrida. Automaticamente, foi transportada para o dia do funeral dele.

Seu maior amor, que costumava ser sempre tão forte, encontrava-se de olhos fechados, envolto por flores e velas, totalmente impotente. Os parentes e amigos de Walter choravam. Mas ela não chorou no seu funeral. Na verdade, ela não sentiu nada. Seu rosto era uma pedra. Nenhuma expressão. Os seus olhos eram quase imóveis. Ela ficou lá, apenas olhando para ele. Sua mãe falava com ela, seu pai parecia fazer o mesmo, os amigos mexiam os lábios constantemente, mas ela não ouvia nada. Após Walter ter sido enterrado, alguém a levou em casa. Ela não dormiu naquela noite. Nem na seguinte. Nem na depois desta. Passava o dia tentando entender. Procurando respostas. Às vezes, cansada daquele esforço intelectual, procurava se distrair. Tentava ler seus autores favoritos. Não conseguia se concentrar. Tentava fotografar os beija-flores na roseira do seu quintal, mas tudo era preto e branco. Tentava escrever algum poema, mas só conseguia escrever a inicial do nome dele.

E agora estava ali.
Não suportaria mais aquilo. Aquela vida. Aquele vazio. Aquela tristeza. Tristeza era o que estava sentindo e, quando percebeu isso, ela chorou. Chorou todas as lágrimas guardadas desde o dia em que Walter descobriu seu câncer. Chorou como se o mundo todo não fizesse mais sentido. Chorou.
As pessoas na estação a encaravam, sem entender o que ela estava fazendo, sentada ali sozinha e distante de todo mundo. “É só mais uma louca.” Alguém gritou. Olhavam desconfiados. Aquela cena parecia penosa para algumas pessoas. Mas ninguém fez nada.
Já havia passado mais outro, o que totalizava cinco oportunidades perdidas no mesmo dia.
O que ela havia feito para merecer aquilo? Antes de Walter, ela não era nada: não era feliz, mas também não se considerava triste. Ele apareceu. Ela mudou. Seus dias pareciam sempre iluminados. Seu coração era pura alegria. Em menos de um ano, lá estava ela: perdida, sozinha e arrependida. Arrependida de ter humilhado Walter por tanto tempo; de não ter aproveitado aqueles dias para estar na companhia do seu amado por mais alguns meses; de não ter se permitido amar antes, bem antes. Apenas arrependida por ter escolhido tantas opções ruins, quando alternativas melhores estavam ali ao seu alcance.
Um barulho. Lá vinha sua sexta oportunidade. Não a desperdiçaria. Poderia escolher mais uma vez, não sabia se essa se encaixava nas opções ruins ou boas, mas a escolheria de qualquer forma. Levantou-se ainda em prantos. Os olhos embaçados pelo rio que brotava dos seus olhos. Viajaria. Partiria para uma nova vida. Mudaria tudo. Escaparia pela última vez. Desistiria pela última vez.
Deu alguns passos largos e rápidos na direção dos trilhos, o sexto trem chegou e ela se foi.
Na estação, as mesmas pessoas que a chamaram de louca e nada fizeram por ela gritavam horrorizadas ao ver a quantidade de líquido vermelho capaz de sair do corpo de uma única mulher.

Lianderson Ferreira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Passos

       Por volta das onze badaladas do relógio, numa noite sombria, sem lua, nem estrelas, eu voltava para casa após um longo e cansativo dia de trabalho, caminhando por uma rua escura e, aparentemente, deserta. O Silêncio era gritante. Seria possível ouvir alfinetes caírem ao chão. Até que, de repente, eu ouvi passos. Passos fortes e apressados, como quando se quer alcançar alguém.
       Eu olhava para trás, o barulho pausava e eu nada via. Continuei andando, dessa vez um pouco menos lento. E o barulho dos passos recomeçava. O que seria aquilo? Eu não estava nem um pouco curioso para descobrir. Apressei-me. E os passos ocultos acompanharam meu ritmo. Eu corri. Não sabia do que estava fugindo, mas algo me dizia que eu tinha de correr. Tão rápido quanto eu fosse capaz. Os passos também o fizeram. Gritei.
       Eu consegui correr mais rápido ainda. Aquela rua parecia nunca ter fim. Nenhum carro, nenhuma casa. Apenas os passos e eu.
       Parei por um segundo, tomei fôlego e tentei ouvir os passos. Nem precisei me esforçar tanto, eles continuavam firmes e cada vez mais apressados. O que seria aquilo? Indaguei-me novamente. Mas os passos se aproximavam. Não conseguiria manter o ritmo por muito tempo. Eu cambaleei, tropecei inúmeras vezes, mas eu sabia que não podia parar. O barulho estava cada vez mais alto, mais forte, mais perto. Os passos haviam me alcançado. Então, subitamente, eu caí da cama. E Acordei!

Lianderson Ferreira

sábado, 13 de dezembro de 2014

Footsteps

       Around 11.00 O’clock p.m., in a dark evening, with no moon, no stars, I was coming back home after a long and exhaustive day of work, walking along a dark street and, apparently, desert. The silence was loud. It would be possible to hear pins dropping on the ground. But, suddenly, I heard some footsteps. Strong and hurried footsteps, as if they were trying to reach someone.
       I looked back, the noise paused and I saw nothing. I continued to walk, a little less slow by this time. And the noise of the footsteps restarted. What would that be? I was not even a bit curious to find out. I hurried. And the hidden footsteps followed my rhythm. I ran. I didn’t know from what I was running away, but something told me that I had to run as quickly as I was able to. The footsteps did the same thing. I shouted.
       I got to run even quicker. That street seemed to never end. No cars, no houses. Only the footsteps and me.
       I stopped for a second, breathed in and tried to hear the footsteps. I didn’t need to try that much, they kept firm and increasingly hurried. What would that be? I wondered once again. But the footsteps were getting closer. I wouldn’t be able to keep the rhythm any longer. I teetered, stumbled several times, but I knew that I couldn’t stop. The noise was louder and louder, stronger, closer. The footsteps had reached me. So, suddenly, I fell off my bed. And woke up!

Lianderson Ferreira

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Die, you devil!

      He hated him. Actually, they hated one another. Was that right? Wasn’t it considered as a sin? It doesn’t matter. There wasn’t any kind of good feeling involved with their relation. They lived under the same ceiling, always meeting in the middle of the living room or the kitchen, they needed to bear each other. They were so different. Having to see those faces that none of them could deal with was awful.
     In some evening, after another daily fight, the boy locked himself in the bedroom, mad. He couldn’t bear that anymore. He thought of several ways to end that torture and send that being back to the shadows, the place which he should have never left. That monster’s voice, his face, his walking, his clothes, everything bothered the poor boy. Mainly, knowing that they still breathed the same air and inhabited the same world. NO! There was no place for both, only one could survive.
     The time passed by. The dawn came out quickly. And the boy was still awake. He wasn’t being able to sleep, not with that beast breathing in the next room. He got off his bed, made himself be standing, opened the door and went straightforwardly to the monster’s place. As soon as the boy opened the other door, he was there: sleeping so comfortably as the devil does in hell. All that anger controlled him and, along with it, an idea came out of the blue, so cold and so exciting at the same time.
       He walked smoothly towards the kitchen of the house. He couldn’t be noisy. He lit the cooker, got a pan full of water and warmed it. He waited anxiously.
         -Time, damn freaking time, you made me wait a lot and I thought you would fix that for me, but you didn’t. Don’t worry, nevertheless, this ends now. –The boy whispered staring at the roof.
      He picked up some cloth from the ground, unlit the fire and carried the pan carefully. He walked slowly, very smoothly, trying to avoid breathing in order to make sure that nothing could wake the devil up from his deep sleep. He pulled the door using one of his feet, went in, stared at, for the last time, that face which would never be the same again, that devil who was going to meet his mates in hell.
     Suddenly, in a swift motion, he poured out the warm water into the sleeping being’s ear, spreading it for all over his head. The devil woke up. He screamed weakly and quickly, shut his mouth up with the amount of water which entered into his mouth. The boy laughed out loud and felt relieved, a fantastic and comfortable relief, even after killing his own dad.

Lianderson Ferreira

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Entendendo os "Porquês"

Olá, pessoal!!

     Bem, nessa primeira postagem, eu gostaria de focar um pouco nos "porquês" para a criação desse blog, como pretendo usá-lo e qual o objetivo, para que, dessa forma, os futuros leitores entendam a essência do blog.
     Recentemente, alguns acontecimentos mudaram bastante minha forma de pensar e influenciaram diretamente nos meus anseios. Um desses acontecimentos diz respeito a um convite que recebi de uma editora para publicar oficialmente alguns dos meus contos numa antologia que visa auxiliar no ensino em escolas públicas e privadas por meio da escrita criativa. Sendo assim, aceitei participar do projeto e publiquei cinco contos nessa obra, sendo dois deles escolhidos para introduzir e concluir a antologia.
     Porém, um outro motivo que me incentivou a criar esse blog está relacionado com o desejo de compartilhar diferentes pontos de vista sobre temas distintos e por meio de formas variadas, abrindo um espaço para expor e pôr em discussão esses tópicos, contribuindo, talvez, para a formação de leitores e seres humanos com mentes mais abertas.
     Pretendo, também, fazer desse blog um espaço para publicar trabalhos desenvolvidos junto com meus alunos, assim como textos de amigos e leitores, sejam contos, fan fictions ou qualquer outra forma de expressão. Por esse motivo, será bastante comum a alternância no idioma das postagens, uma vez que, como professor de língua inglesa, meus alunos vão desenvolver trabalhos utilizando a língua alvo.
    Enfim, espero conseguir tornar esse blog um espaço amplo para compartilhar bastante coisa diferente, legal e divertida, visando o entretenimento, mas também a reflexão.
I hope you like it.
See you!